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quarta-feira, 1 de junho de 1988

Tropeiros da Vacaria

PESQUISA SOBRE OS TROPEIROS E HISTÓRIA DE VACARIA,
DESENVOLVIDA EM 2005, AGUARDANDO PROPOSTA PARA PUBLICAÇÃO








Em memória de meu saudoso avô, Pedro Pereira Bueno,
e em homenagem a todos os ex-tropeiros,
vivos ou mortos, que fizeram a nossa história.






TROPEIROS: QUEM ERAM, O QUE FAZIAM

Edgar Bueno Silveira [1]


Os tropeiros foram, se analisarmos seus feitos, responsáveis pela conquista e ocupação de vários territórios brasileiros, inclusive do Rio Grande do Sul.
Para ser mais claro e objetivo, vou me referir somente à história do Rio Grande do Sul.
Até certo ponto da história de nosso Estado – não vou precisar datas para não cometer equívocos, uma vez que este foi ocupado de diferentes formas e em diferentes tempos – temos principalmente a presença de índios e de padres jesuítas na região das missões. Além destes, em algumas cidades litorâneas (Rio Grande, Pelotas, ect.) ou com acesso por águas, como é o caso de Porto Alegre, havia a presença do homem branco.
Para penetrar continente, afastando-se do litoral e de Porto Alegre, era necessário percorrer caminhos pouco ou totalmente desconhecidos até então.
Além disso, tivemos dois momentos na História do Brasil em que o gado, trazido pelos padres espanhóis para o Rio Grande do Sul e que acabou se criado xucro, sem dono e tornando-se “selvagem”, teve fundamental importância: o “Ciclo do Couro”, ou “Courama”, em que o gado era abatido para se lhe tirar o couro e o sebo a fim de se fabricarem utensílios diversos, e também a “Época das Charqueadas”, quando o gado era abatido, sua carne secada ao sol com bastante sal a fim de conserva-la para depois servir de alimento. Contam alguns historiadores que na época em que as minas começaram a ser exploradas com maior intensidade (em Minas Gerais, principalmente), os escravos negros necessitavam ser alimentados. Por isso, o charque começou a ser comercializado com maior afinco. Além disso, a carne também era apreciada por pessoas brancas.
O gado, então, passou a ser “caçado” no Rio Grande do Sul, e levado vivo para São Paulo e Minas Gerais. Para chegar ao gado, era necessário entrar em meio à mata e a regiões desconhecidas. Também partiam expedições de vilas e povoados rumo ao interior do continente para tal fim.
Para que a tropa de gado “caçado” na parte mais continental do Rio Grande do Sul chegasse a São Paulo e a Minas Gerais sem ter que ser deslocada para a região litorânea e conhecida, era necessária a viagem por meio ao desconhecido. Dais surgiram muitas rotas e estradas, que desde então passaram a ser o caminho de integração do nosso Estado com o restante do Brasil.
Não só as tropas de gado, mas também as de mulas e cavalos, fizeram o desbravamento da região, a abertura de rotas e estradas e a integração do Rio Grande do Sul com o resto do país pelo meio do continente, criando rotas alternativas às litorâneas e às viagens e transporte em barcos. Em nosso Estado eram criados cavalos e mulas, que eram levados para serem vendidos nos dois Estados anteriormente citados. Mercadorias que eram difíceis de se conseguir por aqui eram trazidas nos “cargueiros”, cestos colocados sobre o lombo de mulas.
Com o passar do tempo e a maior concentração de população no Estado, as tropas de mula tornaram-se mais regionalizadas. Iam de uma cidade pequena para uma maior, ou para Porto Alegre ou para o litoral. Chegando lá, abasteciam-se de produtos que eram difíceis de se encontrar por aqui, os quais eram trocados por produtos “interioranos”: feijão, milho, batata, queijo, etc.
Muitas estradas, cidades e famílias surgiram pela ação dos tropeiros, ao longo de suas rotas. Sobre isso veremos mais detalhes adiante.
Os tropeiros tinham uma vida bastante difícil. Enfrentavam os mais diversos desafios, muitas vezes arriscando a vida. Encontros com indígenas, feras, tropear sob sol escaldante ou chuva torrencial, embrenhar-se pelas espessas matas, atravessar rios caudalosos, comer os mesmos tipos de alimentos diariamente, dormir ao relento, sobre pelegos e arreios dos cavalos, eram fatos rotineiros para esses homens. Durante a noite, havia um revezamento para se fazer a “ronda de tropa”: enquanto alguns tropeiros dormiam, outros ficavam acordados vigiando a tropa de gado ou mula, afim de que não “estourasse a tropa”, ou seja, que os animais se dispersassem violentamente, por um susto causado por feras, cobras, índios ou qualquer outro motivo.
Resumidamente, é possível afirmar que boa parte da ocupação, povoamento e desenvolvimento da região mais “continental” do Estado do Rio Grande do Sul se deu em função dos tropeiros. Quando a ocupação, povoamento e desenvolvimento da região litorânea do Estado, é correto afirmar que outros fatores contribuíram.



OS TROPEIROS E SUA INFLUÊNCIA NO
RIO GRANDE DO SUL E NA HISTÓRIA DE VACARIA


Os tropeiros nos deixaram um enorme legado de cultura, influência histórica, étnica e econômica. Além disso, a história de Vacaria se deu arraigada a esses homens.
Nos idos da década de 1720, quando se abriu uma estrada que ligou Curitiba a Laguna, chegando até o Morro dos Conventos, aconteceu a primeira incursão dos tropeiros paulistas à região de Vacaria. Após esse fato, a localidade passou a ser conhecida como “Vacaria dos Pinhais”, deixando de ser chamada de “Baqueria de los Piñales”, denominação esta de origem espanhola, oriunda dos padres jesuítas, uma vez que pelo tratado de Tordesilhas, toda a região do Rio Grande do Sul e parte de Santa Cataria pertenceriam à Espanha. O responsável por tal incursão foi Francisco de Sousa e Faria, que em 1729 chegou à região entrando pelos Aparados e chegando aqui. Anos mais tarde, em 1738, Cristóvão Pereira de Abreu, o mais importante dos tropeiros já conhecido pela história gaúcha, fez o mesmo trajeto. Tal rota permitiu que chegassem à nossa região os primeiros habitantes não índios da história.
Por volta se 1730, para que as tropas que saíam do Rio Grande do Sul chegassem até o sudeste brasileiro, surgiu uma rota de Viamão até São Paulo, passando por Vacaria, atravessando o rio Pelotas no Passo de Santa Vitória, chegando a Lages, indo a Curitibanos, Campo Largo e São José dos Pinhais. Era o conhecido “Caminho de Sorocaba”.
Em 1752, foram concedidas as quatro primeiras sesmarias do Distrito da Serra, como era conhecida a região. Entre os sesmeiros, estavam novamente Francisco de Sousa e Faria e Cristóvão Pereira de Abreu, que começava a expandir seus domínios e territórios pela localidade. Além de Vacaria, outras cidades se desenvolveram a partir de vilas que surgiram pela ocupação desse grande personagem da história do Rio Grande do Sul, embora pouco se fale nele, comparado aos seus feitos.
Em 1819, o tropeiro paulista João de Barros abriu caminho entre Vacaria e Cruz Alta, o que permitiu a ocupação e povoamento de nossa região, a iniciar-se por lagoa Vermelha, nosso município vizinho.
Partindo disso, criou-se uma outra rota de entrada no Estado do Rio Grande do Sul: na localidade conhecida como Pontão, hoje na região do atual município de Barracão. Aí  foi instalado um posto de coleta de impostos em 1849, já que era divisa entre o nosso Estado com Santa Catarina, e por aí passavam tropeiros, tanto de gado quanto de mulas.
Mais de dez anos após isso tudo, era aberta a Estrada Rio Branco, cruzando os atuais municípios de São Marcos, Caxias do Sul e Campestre da Serra, uma vez que a travessia do rio das Antas era feita por dentro do rio, e a partir de 15 de Fevereiro de 1907, pela ponte do Korff, localizada a seis quilômetros do Distrito de São Manoel desta última cidade. Entrava-se em Caxias do Sul pelo atual Distrito de Criúva daquela cidade.


Ponte do Korff sobre o Rio das Antas[2]

A Estrada Rio Branco tornou-se de fundamental importância econômica para a região, pois os criadores e agricultores de Vacaria podiam levar com maior facilidade seus produtos para São Leopoldo, Taquara do Mundo Novo, Caxias do Sul, Feliz, Porto Alegre e São Sebastião do Caí, impulsionando o comércio local, sempre é claro, com a ajuda dos tropeiros, que levavam o gado em tropa ou os produtos em tropas de mulas com cargueiros, ou então com carretas.
O desenvolvimento da cidade ainda preserva resquícios da época das tropeadas: o município desenvolveu-se voltado para o lado onde passavam as tropas. A cidade cresceu entre dois arroios, em uma parte plana. Em conversa com o professor José Augusto Guazzelli[3], a cidade cresceu voltada para o lado onde hoje se localizam a BR 116, o Morro das Antenas e a saída para Bom Jesus. Se formos observar de maneira mais intensa, a qualidade e a quantidade do desenvolvimento que se deu em outras regiões poderia realmente ser considerada diferente.
A Avenida Moreira Paz é bastante larga não por uma questão de planejamento, mas sim por que ali passavam as tropas, formando um “corredor” dentro da cidade. Daí a expressão “corredor grande da Moreira Paz”. Podemos confirmar tudo isso a partir do chamado Morro das Antenas, onde uma vista ampla de nossa cidade pode ser contemplada.
A rota que os tropeiros faziam desde a região das missões até Sorocaba ou então para o litoral passava por Vacaria. Eles traçaram uma certa rota em Vacaria para desviar de banhados e trechos com grandes dificuldades para serem enfrentadas.
Todos os anos, nos meses de abril e maio, começavam a concorrer à Feira de Sorocaba compradores e vendedores, negociando milhares de animais, principalmente mulas. Vacaria participou do comércio das feiras de Sorocaba por mais de meio século, sendo que as tropas de mulas para São Paulo se desenvolveram durante todo o século XX, chegando até por volta de 1930, quando o automóvel e o caminhão substituíram de vez os muares.
Quanto à contribuição étnica, surgiram povoados ao longo das rotas de tropeiros, que se tornaram em grandes cidades atuais, como é o caso de Curitibanos, em Santa Catarina. A miscigenação de índios e “pêlos duros” com os portugueses se deu em grande parte com o auxílio dos tropeiros, pois os lusos, na maioria da família de Cristóvão Pereira de Abreu, o pioneiro das tropeadas, se instalavam nos povoados que se formavam ao longo das rotas de tropeiros, ou corredores de tropa como também eram chamados, com a intenção de manterem-se mais próximos dos familiares e também melhor abastecê-los de suprimentos. Os filhos dessas famílias portuguesas acabam casando-se com pessoas da região, espalhando o sobre nome português.
Em termos de cultura, sabemos da sua enorme contribuição às tradições gaúchas: uma vestimenta característica dos tropeiros, diferente das usadas nas estâncias, dos peões e dos patrões. Além disso, na arte culinária o charque era muito difundido, e como conseqüência o arroz de carreteiro, havendo ainda o feijão tropeiro, entre outras “iguarias campeiras”. Sua arte também se manifestou nas danças, exclusivamente masculinas, pois as mulheres não tropeavam. A Chula, o Fandango Sapateado, Dança dos Facões e Chico do Porrete eram dançadas nas “rondas de tropas” (acampamentos onde os tropeiros passavam a noite, alguns dormiam outros cuidavam para que o gado não se dispersasse) durante a noite.
De certa forma, não é apenas na região de Vacaria e no Rio Grande do Sul que se pesquisa e estuda sobre os tropeiros. Talvez em nossa região isso ocorra com maior ênfase pelo fato de ser algo que nos interessa muito, além de fazer parte das nossas tradições gaúchas. Na verdade, autores de outras partes do Brasil falam a respeito do tema, por se tratar de uma rota histórica e que ainda hoje conserva resquícios de seu trajeto original. Além disso, as rotas estabelecidas pelos tropeiros, bem como suas viagens, foram durante muito tempo uma das poucas formas de ligação do Rio Grande do Sul com o sudeste e o nordeste do Brasil.
Caio Prado Júnior é talvez o melhor exemplo desses autores, pois em uma de suas obras mais conhecidas cita diversas vezes o nome de Vacaria e das tropas. Ele escreveu sobre a formação do Brasil em seus diversos aspectos – étnicos, povoamento, econômico, etc. – levando em conta fatos marcantes da história de nosso país.
Paixão Côrtes, ao pesquisar e difundir a cultura que os tropeiros nos legaram, pesquisou e difundiu junto a sua história. Autor de diversas obras referentes ao tema, Paixão Côrtes não limitou-se apenas a descrever como era o traje e as danças dos tropeiros. Ele foi bem adiante, levantando dados sobre sua história, suas rotas e seu cotidiano nas tropeadas. Dessas pesquisas resultou uma magnífica obra, considerada por mim, e por muito outros, um dos mais belos meios de se ter contato com a temática dos tropeiros. Na obra, encontram-se vários mapas, entre eles o que escolhi para ilustrar e confirmar os dados a que me referi neste trabalho. Ele mostra Vacaria como uma das rotas que ligava o Rio Grande do Sul ao centro e sudeste brasileiro, bem como ao litoral gaúcho.
Paixão Côrtes (2000, pg. 52), em uma de suas muitas obras, representou as rotas de tropeiros neste mapa:

             FONTE: PAIXÃO CÔRTES (2000, pg. 52).


Vacaria é hoje uma cidade com economia firmada na fruticultura. A cidade localiza-se na fronteira do Estado do Rio Grande do Sul com Santa Catarina. Vizinha de Lages, no Estado catarinense, o município é conhecido como “A Porteira do Rio Grande”, pois até a abertura da BR 101, era o caminho mais utilizado (e um dos poucos existentes) para se entrar e sair do Rio Grande do Sul.
Caio Prado Júnior, ao abordar a história do “Povoamento do Interior” do Brasil, destaca que o Rio Grande do Sul se desenvolveu a partir de fazendas de gado e menciona o nome de Vacaria:


“(...) o Sul, a área que se estende do atual Estado do Paraná, então simples comarca de São Paulo, até o extremo meridional da colônia compreendendo os campos de Curitiba, o sertão de Lages (Santa Catarina), os campos de Vacaria (Rio Grande do Sul). É uma faixa de campos, dirigida de norte a sul, e delimitada, (...), por matas densas, não penetradas pela colonização, e dominadas ainda pelo gentio, os” bugres “, (...) e que predomina a preciosa araucária”.[4]

Note-se na descrição acima a referência à araucária, que é marca característica da região, e que abasteceu as madeireiras de Vacaria ao longo de sua história, e também de onde muitos povoadores retiraram madeira para erguerem suas construções.
Mais adiante em sua obra, Prado Júnior cita novamente Vacaria, desta vez tocando no ponto que nos interessa: os tropeiros, as estradas por onde passavam as tropas, o gado levado do Rio Grande para Sorocaba, as tropas de mulas que traziam e levavam mercadorias, o povoamento e a origem pastoril da cidade:


“Para o sul, nos campos de Lages, o povoamento se rarefaz consideravelmente, e é quase só a grande via de comunicação do Extremo-Sul, por onde transitam o gado e sobretudo as tropas de bestas que vêm do Rio Grande, e em Sorocaba (São Paulo) se distribuem pelas capitanias do Centro e do Norte, é quase só esta via que dá sinais da presença do Homem.(...) Nos campos de Vacaria, em território já do Rio Grande do Sul, as fazendas de gado reaparecem mais numerosas, e com elas um povoamento ralo e exclusivamente pastoril.”[5]


Voltando a se referir aos caminhos que os tropeiros utilizavam, Prado Júnior destaca mais uma vez que o a estrada principal que ligava o império ao extremo sul:


“(...) partindo de São Paulo, propriamente de Sorocaba, via de Lages, penetra no Rio Grande cruzando o Pelotas no registro de Santa Vitória, estendendo-se até a capital da capitania. (...) A estrada São Paulo Rio Grande do Sul teve um grande papel histórico.”[6]


Nova citação do nome do Passo de Santa Vitória no livro de Fidélis Dalcin Barbosa, que descreve:


“No Passo de Santa Vitória, transpõem um rio caudaloso e desconhecido, o qual por ser atravessado por canoas de couro, chamadas pelotas, receberá este nome, dado pelos bandeirantes. Os animais passam a nado, enquanto as pessoas e pertences cruzam o rio embarcados.”[7]


Vacaria é uma cidade com grande influência da colonização portuguesa. Muitas pessoas que têm o mesmo sobrenome podem ter um ancestral comum, pois os grandes fazendeiros enviavam familiares para se estabelecerem ao longo das estradas de tropas para terem com assistir suas caravanas.
Outro aspecto que chama atenção é a história da Catedral e da praça central. O sino da igreja era uma maneira dos tropeiros saberem a hora da Ave Maria, pois o sino podia ser escutado ao longe. Ao final da tarde, os tropeiros reuniam-se para rezar e agradecer a jornada, além de pedir proteção para eles, bem como à suas famílias, que ficavam em casa. A própria imagem de Nossa Senhora da Oliveira[8], padroeira do município e que hoje se encontra na catedral, quando foi descoberta, teria sido levada para uma outra igreja, para uma cidade vizinha de Vacaria, viajando por rotas estabelecidas pelos tropeiros.

Catedral Nossa Senhora da Oliveira: Vista externa e interna.[9]

O professor Aldomar A. Rückert, ao pesquisar a ocupação e colonização do centro-norte do Rio Grande do Sul e publicar sua pesquisa em forma de livro, destaca também a importância dos tropeiros para o desenvolvimento de toda a região, bem como do próprio Estado gaúcho, ao afirmar que pela atividade desses homens:


“(...) produz-se a articulação inicial do território meridional ao centro da Colônia e a ocupação progressiva das terras por esses tropeiros que acabam por sedentarizar-se.”[10]


Isso vem confirmar as informações que levantei através. A sedentarização dos tropeiros, de suas famílias, de fazendeiros e comerciantes que abasteciam as tropas, acabou por formar e desenvolver diversos municípios ao longo do percurso entre o Rio Grande do Sul e Sorocaba.
Tento sempre destacar nas tropas a sua importância para a História de Vacaria e do próprio Estado do Rio Grande do Sul em todos os seus sentidos. Na localidade chamada de Passo do Socorro, onde hoje se localiza um Posto Fiscal na BR 116, entre Vacaria e Lages, já havia em tempos mais antigos um posto de coleta de impostos. Isso pouco mudou, como se pode ver. Note-se ai também a importância econômica dessas rotas.
Na década de 60, a ponte sobre o rio Pelotas caiu em função de uma enchente. Aquilo causou o caos em toda a região. Comerciantes de beira de estrada, pensões, hotéis e estabelecimentos que atendiam a motoristas e viajantes quase foram à falência no período em que a estrada esteve com pouco movimento.
A exemplo de Paixão Côrtes, Rückert também publicou em seu livro um mapa onde aparecem as principais rotas de tropeiros da região. Nele, podem-se notar o Passo do Socorro, e também o Passo de Santa Vitória, que Prado Júnior e outros autores, bem como relatos de ex-tropeiros haviam enfatizado.



  FONTE: RÜCKERT (1997, pg. 48)

Além de autores e pesquisadores gaúchos e brasileiros que escrevem sobre os tropeiros e sobre a importância de Vacaria, temos até mesmo autores estrangeiros que participaram desses levantamentos de informações sobre o tema.
Vejamos agora dois deles: Joseph Hörmeyer e Auguste de Saint-Hilaire.
Por volta de 1850, Joseph Hörmeyer, um militar austríaco que visitou o Estado do Rio Grande do Sul e o descreveu em um livro, que se tornou um manual para os imigrantes alemães (em função de o autor ter conversado com colonos aqui já estabelecidos, e de o livro ter sido editado na Alemanha e em alemão), escrevendo sobre o Rio Pelotas, registrou que:


“(...) Na mesma zona do rio está situada Nossa Senhora da Oliveira de Vaccaria – comumente chamada de Vaccaria -, cidade de 1.500 a 2.000 habitantes. Em todo esse distrito, (...), estendem-se imensas florestas, o Mato Castelhano e o Mato Português, em que habitam os índios de diversas tribos, designados geralmente de bugres, embora essas tribos sejam denominadas com nomes bem diferentes (...)”[11]


Infelizmente, o autor dá riqueza de detalhes quanto a clima, vegetação, hidrografia e estradas, mas com muito mais ênfase na região onde os colonos alemães estavam já estabelecidos, falando pouco do município de Vacaria e dos tropeiros.
Auguste de Saint-Hilaire, um viajante e pesquisador francês que visitou o nosso Estado entre os anos de 1.820 e 1.821, não chegou a visitar a cidade de Vacaria, mas quando esteve na localidade de são Xavier. Ele descreve os negócios que realizou com um gaúcho que plantava e colhia arroz, feijão, amendoim e fumo, e que depois levava estes produtos em cargueiros de mula em tropa para outras localidades. Saint-Hilaire cita o nome de Vacaria,  bem como a atividade tropeira para trazer mercadorias para cá:


“Comprei a esse homem um alqueire de farinha de milho por 8 patacas. Isso dá muito lucro e os resultados que ele tira da cultura do arroz, do feijão e do amendoim não devem ser menores. Também a cultiva o tabaco, que prospera bem, do qual faz fumo em corda para vender em Vacaria.”[12]


Quanto a sua contribuição histórica, étnica e economicamente, pode-se fazer uma análise conjunta. Os tropeiros foram quem desenvolveram muitos caminhos de integração da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul ao centro do Império. Antes deles, apenas bandeirantes e padres conheciam os raros caminhos que integravam as duas regiões. Note-se aqui a contribuição econômica, pois o tropeiro criou novas rotas para esses deslocamentos entre centro e sul do país, gerando assim maiores possibilidades de intercâmbio econômico.
Ainda se falando em economia, sabemos do comércio rudimentar e primitivo que os tropeiros estabeleceram: levavam e vendiam o gado do sul em São Paulo e Minas Gerais. Com o passar dos tempos houve uma variação no tipo de tropeadas, passando também a tropearem-se mulas, perus, porcos, entre outros, além é claro das tropas de mulas com cargueiro, onde muitos agricultores carregavam-nas com aipim, batata – doce, feijão e produtos da terra e tropeavam até pontos de comércio no litoral, onde estes produtos eram trocados por arroz, cachaça, açúcar amarelo e sal. Às vezes os tropeiros pagavam os serviços que lhe ofereciam pelo caminho com mercadorias e não com dinheiro.
Podemos deduzir que se estabeleceu uma cultura de subsistência entre os pequenos proprietários rurais na região de Vacaria, além de produtos pastoris, em função dos tropeiros. Meu falecido avô, Pedro Pereira Bueno, foi um exemplo disso. Plantava batata, milho, feijão, moranga, abóbora e mandioca, entre outros produtos. Levava-os em cargueiros de mula até a cidade de Torres, onde se estabeleceu uma rota de tropeiros pelo litoral do país. Lá ele trocava esses produtos por açúcar amarelo, cachaça, rapadura, café, sal, arroz, utensílios domésticos, ferramentas e dinheiro.
Outros indícios confirmam minha dedução. Dalva Holmer Soldatelli, menciona que os animais iam para Caxias do Sul e Torres carregados:


“(...) de tudo que levavam do campo para a cidade: queijo, charque, couro, lã, crina, mel, etc. Em troca, iriam carregar o que a cidade tinha para oferecer aos que ficavam no interior, longe dos produtos difíceis de serem encontrados: querosene, açúcar, café, arroz, sal, enlatados, “bijouterias”, fazendas, aviamentos, vinho em barril, etc.”[13]


Hoje muitas estradas asfaltadas e modernas se desenvolveram seguindo boa parte do traçado das rotas de tropeiros. Uma dessas estradas é a própria BR 116, que liga Vacaria a Lages, outro “pouso de tropeiros”.



BREVE DATAÇÃO HISTÓRICA DE VACARIA


1637- Surge a Vacaria do Mar
1697- Chegada do primeiro gado, trazido pelos Padres Espanhóis
1677- Surge a Vacaria dos Pinhais (região mais próxima ao leste gaúcho), contradizendo a
           data da chegada do gado. Como pode ter surgido a Vacaria dos Pinhais antes do gado
           ter chegado?
1713- 80.000 reses em Vacaria (fêmeas em idade de dar cria)
1726- Sertanistas de Laguna e Sorocaba penetram nos Campos de Cima da
          Serra, em busca do gado que era criando solto na "Vacaria dos Pinhais"       
1729 - Francisco de Sousa e Faria chegou à região entrando pelos Aparados e chegando aqui.
1730 - aproximadamente nesta época, surgiu uma rota de Viamão até São Paulo, passando por Vacaria, atravessando o rio Pelotas no Passo de Santa Vitória, chegando a Lages, indo a Curitibanos, Campo Largo e São José dos Pinhais. Era o conhecido “Caminho de Sorocaba”. Após esse fato, a localidade passou a ser conhecida como “Vacaria dos Pinhais”, nomenclatura em português.
1738 - Cristóvão Pereira de Abreu, o mais importante dos tropeiros já conhecido pela história gaúcha, fez o mesmo trajeto. Tal rota permitiu que chegassem à nossa região os primeiros habitantes não índios da história.
1750- 8 de Setembro: encontrada a Santa, conforme a lenda
1752 - são concedidas as quatro primeiras sesmarias do Distrito da Serra, como era conhecida a região. Entre os sesmeiros estavam Francisco de Sousa e Faria e Cristóvão Pereira de Abreu. Porém já havia posseiros na nossa região já há alguns anos.
1754- 2 de Novembro: 160 Vacarianos compõem um Regimento que vai para
          Rio Pardo lutar na Guerra dos Sete Povos das Missões
1761- 21 de Março: inaugurada a primeira capela votiva
1768- 20 de Dezembro: a freguesia passa a pertencer a Santo Antônio da Patrulha
1819 - o tropeiro paulista João de Barros abriu caminho entre Vacaria e Cruz Alta, o que
          permitiu a ocupação e povoamento de nossa região, a iniciar-se por lagoa Vermelha, 
          nosso município vizinho.
1837- 31 de Outubro: Vacaria torna-se acampamento do chefe do exército
          imperial, Major Cândido Alano, durante a Guerra dos Farrapos.
1849 - na localidade conhecida como Pontão, hoje na região do atual município de Barracão, foi instalado um posto de coleta de impostos em, já que era divisa entre o nosso Estado com Santa Catarina, e por aí passavam tropeiros, tanto de gado quanto de mulas.
1850- 22 de Outubro: por Lei Provincial número 158, se desmembra de Santo
          Antônio da Patrulha e é elevada à categoria de vila.
1851- 10 de Setembro: é instalada oficialmente a Vila de N. S. da Oliveira de
          Vacaria, com posse da primeira Câmara de Vereadores
1857- Lei número 337 de 16 de Janeiro anexa Vacaria à Comarca de Porto
          Alegre, removendo a sede para Lagoa Vermelha
1857- Lei número 391 extingue o município, passando, juntamente com Lagoa
          Vermelha para Santo Antônio da Patrulha
1876- Lei número 1018 de 12 de Abril: Vacaria e Lagoa Vermelha passam à
          jurisdição de Passo Fundo
1878- Lei número 1115, de 1º de Abril: volta a sede para Vacaria
1878- Lei número 1141, de 7 de Maio: Vacaria se desanexa de Passo Fundo e se
          constitui em comarca
1888- Epidemia de Varíola
1893- 23 de Junho: as forças de Avelino Paim derrotam os amotinados de
          Demétrio Ramos, em Ranchinho, Enxovia
1893- 18 a 20 de Outubro: Passam por Vacaria as forças de Gumercindo Saraiva
          e Coronel Salgado, na Revolução de 1893-1895
1894- 09 e 10 de Outubro: combate entre as forças de Demétrio Ramos e
          Avelino Paim
1900- 14 de Janeiro: lançada a pedra fundamental de construção da Catedral
          Nossa Senhora da Oliveira
1901- 15 de Fevereiro: inauguração da Ponte do Korff, no Rio das Antas, entre
          São Manoel (hoje Campestre da Serra) e Criúva (Caxias do Sul)
1903- Fundação do Colégio São José pela Madre Joana Vitória
1911- Inauguração da luz elétrica
1917- Chega o 1º automóvel em Vacaria  (Manuel Júlio de Oliveira e Rodolfo Braghiroli)
1933-34- iniciam-se as pesquisas topográficas e os estudos de engenharia militar para
                a construção da BR 116
1936- Pelo Dec. Lei 6332, assinado pelo governador Flores da Cunha, em 21 de Novembro,
           Vacaria toma a denominação de CIDADE
1939- 19 de Abril: inaugurada a primeira Estação Rodoviária do país, por Vespasiano Veppo
1951- Surge o Torneio de Laço, em Esmeralda
1958- 06 de Abril: Primeiro Rodeio de Vacaria
1965-66 - Cai a ponte sobre o Rio Pelotas
1966- Neve durante vários dias



RESGATANDO A HISTÓRIA DOS TROPEIROS DA VACARIA:
RELATOS E ENTREVISTAS


Inicialmente vou relatar a entrevista realizada com o senhor Eliziário Vieira de Jesus. Ele e sua esposa, meus vizinhos e amigos de toda nossa família, me receberam de braços abertos em sua residência. Ela, servindo cafezinho, trazendo seus óculos, ajudando-o a se levantar da cadeira para trocar de lugar, trazendo-lhe sua bengala. Ele, emocionado e contente por falar sobre o assunto.
Hoje “Seu Liziário” é aposentado. Quando perguntado sobre sua idade, no dia 02 de Julho de 2005, disse que “logo depois da manhã, faço oitenta”.
Segue a nossa “prosa”:

Edgar: O senhor foi tropeiro de gado ou de mula?
Eliziário: “Dos dois, gado e mula, tanto faiz”.
Edgar: Pra onde o senhor tropeava?
Eliziário: “Nóis trazia tropa de São Francisco de Paula pra cá. Vinha por o Korff.”
Edgar: Em que época o senhor tropeava, o senhor lembra do ano?
Eliziário: “48, mais ou meno. Nóis ia com uma comitiva e animal de trabalho pra traze o gado”.
Edgar: Passava por São Manoel?
Eliziário: “Passava por São Manoel”.
Edgar: Quanto tempo levava para ir e voltar?
Eliziário: “Pois olha, isso ai é cumpricado. Quando dava o acaso de chega im uma fazenda, duas, e compra o gado levava até uns oito dia. Quando o gado era “arçado”[14], era mais difícil pra gente reuni eles, né. Levava inté um meis.”
Edgar: O vô (que morava ao lado da casa do senhor Eliziário quando vivo) me contava que ele tropeava pra Torres. Como é o cominho pra lá: passa Bom Jesus, São José dos Ausentes, depois ...
Eliziário: “Depois dos Ausentes pra lá já começa desce a serra, pra i cai pra Rocinha[15]. E depois, pra praia grande, entra em Bom Jesus, pega as direita, passa o rio Tainhas, passa o rio ... (pensantivo, tentando lembrar o nome de outro rio).”
Edgar: O vô me contava sobre o rio Tainhas, que ele gostava de passar, porque era largo, mas a correnteza era fraca e a água era baixa.
Eliziário: “O rio Tainhas tinha, era largo, mais tinha que i um animal atrais do otro porque tinha lugar que tinha os carderão, que a gente chamava naquela época.”
Edgar: Era poço[16]?
Eliziário: “Não é que seja o poço, era uns buraco muito fundo. Tinha a cachoera a esquerda pra quem vai daqui pra lá. Hoje eles chamum castaca, na época a gente dizia cachoera mesmo. Pudia ta frio, pudia ta o sol que tivesse, subia aquela serração,  que inté era bunito de vê. Eu não me dexaro i lá perto vê, mais era bunito!”
Edgar: E nos cargueiros, o que o senhor levava?
Eliziário: “Não levava nada, mais de Torres trazia porvilho, arrois, farinha... fruita. Da Praia Grande, de lá nóis trazia fruita, banana, essas coisa que pra cá não tem.”
Edgar: Aquela foto que o senhor tem ali na parede, com uma tropa de cargueiros, é o senhor?
Eliziário: “Não, aquele quadro foi o falecido Marcelo quem me deu. Mais é a mesma coisa que você ta oiando as coisa da época. Era bem assim. Nessa época, a gente ia com 14 carguero, Cada carguero ia noventa quilo. O burro carregava mais, mais a base é sempre noventa. E na “Zanta”[17] tinha a barsa. Ou passava por dentro d’ água.”
Edgar: O senhor tem saudade do tempo que o senhor tropeava?
Eliziário: “Ah, eu gostava! Naquele tempo eu era guri, quando a gente é guri tudo é bão, né. E a gente de a cavalo presenceia melhor as coisa, né, tem lugar que a gente até pára de tão lindo que é. Nessa tropa de boi nóis era sempre seis cavalero. Era sempre 300, 350 boi. Na tropa de cavalo nóis era em quatro cavalero. Um amadrinhava e os otros treis tocava. Vai o madrinhero na frente e a tropa tudo atrais.”

A partir desse momento, começamos a olhar fotos, recortes e gravuras sobre tropeiros. Ao olhar no livro de Paixão Côrtes uma gravura de tropas atravessando um rio, “Seu Liziário” ficou pensativo e disse que “isso aqui era bem assim mesmo”. Vimos ainda a gravura do senhor Horácio de Oliveira Lima ao lado de Paixão Côrtes. Ao se referir a Lima, me disse que “esse era muito comentado na minha época”. Olhamos as gravuras de guaicas de tropeiro, de esporas, bota de garrão de potro, etc. Ao vermos as esporas, perguntei se era uma “nazarena ou uma chilena”, e ele me respondeu que era “uma chilena mesmo, olha o papagaio”.
Quando olhamos algumas gravuras de tropas de gado, ovelhas, mulas, etc., surgiu o seguinte diálogo:

Eliziário: “Esse retrato é bão que essa gente nova veja, porque a gente contando eles não acreditum que a gente em cinco, seis cavalero, tinha que luta cum 300, 350 cabeça de gado. E teve gente que não cunheceu isso ai”.
Edgar: Essa gravura aqui, da mangueira de pedra é, deixe eu ver ... em Bom Jesus.
Eliziário: “É, eu cunhicia tudo isso ai. Agora eu já muito veio e esquicido, mais sinão eu me lembrava e te dizia o nome de poso de tropa por poso de tropa que eu passava até lá. Mais essa foto da tropa é muito linda, é de não acriditá mesmo que nóis controlava tudo esse gado.”
Edgar: Era pouso de tropa, onde faziam as rondas de tropa, quando uns dormiam os outros ficavam acordados para cuidar da tropa.
Eliziário: “Ficava, ficava acordado mesmo. Uma vez, de madrugada, nóis durmimo pro lado de lá da Zanta. De madrugada nóis passemo a ponte e os cachorro acuaro, fizero uns baruio numas lata lá, porque do lado de cá tinha uns barrancão assim, tinha umas serraria im cima do morro, nossa!!! Aquele gado estoro, até quase im cima do morro eu mim co riadô, gritando êra, pára, êra, pára, depois eu só tirei o pala e arrodiava assim pra vê se eu assustava aquele gado. A sorte que istoro pra cima, se não tinha murrido muito gado. E morreu muito mesmo, eles batem as guampa, ficha um fedô de guampa queimada que não há quem agüente.”
Edgar: Aqui tem a gravura de botas de tropeiro, da de garrão de potro, como essa que o cano da bota vai até o joelho. Tem essa com os pala, bichará...
Eliziário: “É, bichará é o que mais tinha na época. E essas bota também tinha lá onde eu me criei.”

Ao nos despedirmos, seu Eliziário falou sobre o contentamento de falar no assunto, me convidou para “aparecer” e conversarmos outras vezes. O que mais chamou a atenção, e a frase que encerro esse relato, foi:

“Pena que tudo isso acabô, porque era bunito, porque tudo que é bunito se termina!”

Em outra entrevista, conversei com o senhor João Faoro e com sua esposa, Luz Marina Faoro. Não vou transcrever na íntegra a nossa conversa, devido ao grande número de informações colhidas.
João Faoro, pecuarista e agricultor, 44 anos, é filho do falecido Osvaldir Faoro, conhecido como Mata Pau, afamado ginete e domador nos Rodeios Crioulos Internacionais de Vacaria, e o principal responsável pela divulgação do tradicionalismo gaúcho no município de Campestre da Serra. Luz Marina é graduada em Letras, Literatura e Língua Inglesa, atuando como bibliotecária no Instituto Estadual de Educação Irmão Getúlio.
Em uma conversa informal e descontraída, ambos relataram muitos aspectos importantes sobre a rota que os tropeiros estabeleceram por Campestre da Serra, mais precisamente pela estrada que passa pela vila de São Manoel, hoje distrito de Campestre da Serra, e segue até atravessar o Rio das Antas pela Ponte do Korff.
Iniciamos a conversa falando sobre o texto da senhora Dalva Holmer Soldatelli, que fala sobre a passagem das tropas pela região onde até hoje se localizam propriedades da família Faoro. A professora Luz Marina iniciou uma leitura silenciosa para se inteirar do assunto.
Segundo o senhor João Faoro, na estrada da localidade conhecida como Tronco, passavam tropas de gado e de mula, “no tempo o pai era gurizão, eles levavam couro, charque, queijo, que eles levavam pras praia como eles dizia. De lá eles traziam melado, açúcar amarelo, farinha de mandioca, o papai contava”.
A localidade onde havia o pouso dos tropeiros, realmente ainda hoje é propriedade da família, “é onde hoje ficou pra minha mãe”, nos relata o senhor Faoro.
Em certa altura de nossa conversa, Luz Marina leu um trecho que trouxe à tona na memória do senhor Faoro lembranças do seu “tempo de piá”, pois seu pai “falava na invernada do Moro, do véio Moro”. Até mesmo da vila de São Manoel, surgiram lembranças: “o vô Zago (José Zago), tinha um comércio grande, tipo aquele que tinha ali perto do terminal dos ônibus, ... , o Arcelino, o vô vendia de tudo, pólvora, roupa, comida. Era de três andares a casa, tinha até moinho, tinha os galpão grande, saí de lá com três anos, mais me lembro. O võ tinha o moinho, ele não cobrava em dinhero pra fazê a farinha, cobrava a terça parte”. O senhor José Zago abastecia os tropeiros e os moradores da vila, que era bastante grande na época. Questionei se era verdade que muitas vezes não havia negociação em dinheiro com os tropeiros, sendo que como resposta me foi respondido que “ih, não se usava dinheiro, se trocava muita coisa, não precisava dinheiro, trocava a mercadoria mesmo”.
Novas lembranças recordam a região antigamente. Novamente, sobre São Manoel:
“São Manoel era grande, tinha até cartório de registro, tipo esse da Cecília aqui, do lado da igreja. Na verdade, a estrada (BR 116, que atravessa Campestre da Serra e liga Vacaria a São Marcos) não era pra se por ali, tanto é que fizeram a ponte em quando que tu disse? 1901? Pois é, daí transferiram o cartório não me lembro pra onde, se foi pra Ipê ou ... Nem a estrada de Antônio Prado era a mesma, não vinha por ali pela encruzilhada da 116, saía aqui pela Júlio de Castilhos, saía lá na Fazenda Clarice e ia por Antônio Prado pelas direita, ou pela esquerda pegava ali pelo Guacho e seguia por São Manoel. A serra de São Manoel e de Antônio Prado é muito mais leve do que a de São Marcos e Caxias, que é cheia de curva, e sobe morro, e desce morro. Isso ali era tudo rota de tropeiro.”
Mais adiante, olhando gravuras do livro de Paixão Côrtes (o mesmo citado nas referências bibliográficas, na entrevista com o senhor Eliziário e ao longo de todo este trabalho), Faoro relembra das tropas de porcos e das tropas de mula. Em seu relato, contou que eram “onze irmão, tudo gurizada, nós domava as mula pra depois o pessoal vendê e tropeá”. Das tropas de porcos, relembra de uma vez que o seu pai “arrendô a Fazenda Paiquerê (próxima, segundo alguns relatos, da fronteira do Rio Grande do Sul com Santa Catarina), não tudo, só uma parte, porque era enorme, tudo aquilo. O pai chego a fica quase dois ano sem vim em casa, e quando viéro de lá trouxero mais ou menos cinco mil porcos, tudo por diante, em tropa de porco. O pai contava dessa”.
Nossa conversa seguiu em tom de informalidade, e nos desprendemos um pouco do assunto. Ao final, Luz Marina nos relatou do sentimento de não haver fotos da época, e Faoro contou sobre outros moradores de região, um “com mais de noventa anos”, segundo ele, que foram tropeiros. Deu inclusive, dicas de como chegar a estas pessoas.
Novamente houve uma receptividade e aceitação muito grande das pessoas com quem conversei, o que mostra que para se regatar a nossa história local não é muito difícil.



CONSIDERAÇÕES FINAIS



Na Avenida Moreira Paz localiza-se um cemitério. Meu avô encontra-se da maneira que gostaria de estar, no local onde gostaria de estar: foi sepultado pilchado, e o cemitério fica em uma esquina na qual as ruas foram rotas de tropeiro.
Os relatos que meu falecido avô contava foram todos confirmados através da pesquisa bibliográfica, na WEB e nas entrevistas com cidadãos vacarienses.
Em todas as conversas e pesquisas, algumas coisas sempre estiveram presentes, tais como a Ponte do Korff, as rotas que os tropeiros realizavam, o litoral gaúcho, o comércio que os tropeiros desenvolviam, as histórias das tropeadas, o desenvolvimento da cidade arraigado aos tropeiros, o próprio povoamento da cidade, a agricultura e a pecuária que se desenvolveram na cidade e região em função das tropas, etc.
Os produtos agrícolas que aqui eram produzidos, bem como o artesanato de arreames em couro, fazem-me acreditar que foram essas as nossas primeiras atividades econômicas, ao contrário de alguns pesquisadores que pensam ser a agricultura de subsistência e a ocupação do território as primeiras atividades sociais e econômicas da região. Não descarto a hipótese de que, num primeiro momento, realmente o foram, mas, com o passar do tempo e com as potencialidades da localidade – água em abundância, terra fértil, gado solto em sem dono, vegetação que oferecia madeira de qualidade, beleza das paisagens, etc. – fizeram com que os nossos primeiros povoadores acreditassem no potencial da região.
Quando me refiro à agricultura e a pecuária de Vacaria, não o faço apenas pensando na Vacaria atual, mas também à agricultura e pecuária da Vacaria do passado.
Em 1888 ocorreu em Vacaria uma epidemia de varíola. Eram tantas as mortes, que muitos corpos eram sepultados envoltos em lençóis, pois os marceneiros não davam conta dos pedidos de caixões, tal era a gravidade da situação. Muitos corpos foram sepultados em vala comum. Muitos pesquisadores e historiadores atribuem essa epidemia aos tropeiros, pois de acordo com alguns relatos, alguns desses homens teriam morrido na rota entre Sorocaba e Vacaria, e que a doença teria chegado ao nosso município por meio dos tropeiros. Como se vê, tanto nos aspectos positivos quanto negativos de nossa história as tropas têm uma ligação muito forte.
Em determinado ponto da conversa com o senhor Eliziário, quando ele contou de um “estouro de tropa” próximo à Ponte do Korff, falou sobre serrarias. Não podemos esquecer da época em que a extração da madeira foi a base da economia municipal.
Não sei se por sorte ou pelo destino, esse trabalho condensou diversos aspectos importantes do nosso município. Retratou a ocupação e o povoamento da região, com a chegada dos primeiros homens não índios (prefiro esse termo por considerar a expressão “homens brancos” discriminatória, uma vez que os índios eram os verdadeiros donos da terra); as primeiras estradas que ligavam o nosso município com as atuais Lagoa Vermelha, São Francisco de Paula, Caxias do Sul, Ipê, Torres, Lages, Bom Jesus, e tantas outras. Retratou ainda as atividades primeiras econômicas da região. Retratou a religiosidade do povo na lenda de Nossa Senhora da Oliveira, nos mostrou as dificuldades que os primeiros desbravadores enfrentaram.
Para muitos cidadãos vacarienses essas pesquisas não trazem à tona informações diferentes daquelas que eles já tinham. Porém, para outros, tudo é novidade.
No I Seminário de Autores Regionais da UERGS, no ano de 2003, o autor de Esmeralda Cléber Pacheco mencionou a importância de uma universidade divulgar o potencial artístico e literário de sua região. Logo na mesma semana, ele publicou em um jornal do município uma nota enfatizando esse tipo de evento. No mesmo seminário, nosso saudoso Hidalécio Vitter Moreira, de Lagoa Vermelha, falou, com outras palavras, a mesma coisa. No ano de 2004, a autora vacariense Suzana F. Minuzzo também mencionou a importância do evento, que mostrava as obras de escritores de nossa região e as colocava ainda mais na mídia e tornava-as ainda mais conhecidas.
Da mesma forma, é necessário destacar o conhecimento, não apenas das pessoas que contribuíram para a realização deste trabalho com seus relatos e textos. De nada adiantaria elas terem tal conhecimento da história de Vacaria, bem como da contribuição dos tropeiros à mesma, se eles não se dispusessem a dividir toda essa cultura com pesquisadores e historiadores, que como eu, têm a intenção de conhecer nossas raízes, nossas origens, de conhecer nossa cultura, bem como partilhar tais saberes com todos os interessados. De nada também adiantaria termos essa cultura engavetada apenas dentro da universidade. É preciso dissemina-la, fazer com que todos tenham acesso a ela.
A todos que pensam e agem assim, meus mais sinceros agradecimentos.





REFERÊNCIAS



BARBOSA, Fidélis Dalcin. Vacaria dos Pinhais. Editora da Universidade de Caxias do Sul: Caxias do Sul, 1978.

HÖRMEYER, Joseph. O Rio Grande do Sul de 1850: descrição da Província do Rio Grande do Sul no Brasil meridional. – D.C. Luzzatto Ed.:EDUNI-SUL, 1986.

OLIVEIRA, José Fernandes de. Rainha do Planalto. Editora São Miguel: Caxias do Sul, 1959.

PAIXÃO CÔRTES, João Carlos. Danças Birivas do Tropeirismo Gaúcho. Porto Alegre: CORAG, 2000.

PINOTTI, Adhemar. Pesquisa Histórica sobre Vacaria. Folheto publicado em ocasião do aniversário do município.

PRADO JÚNIOR, Caio. Formação Social do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1999.

RÜCKERT, Aldomar A. A trajetória da terra: ocupação e colonização do centro-norte do Rio Grande do Sul: 1827 – 1931. Passo Fundo: EDIUPF, 1997.

SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul: 1820-1821. Editora Itatiaia: Belo Horizonte, 1974

SOLDATELLI, Dalva Holmer. Vacaria e os meios de transporte nas primeiras décadas do século. (in.) Raízes de Vacaria I – Porto Alegre: EST, 1996.



Relatos orais de cidadãos vacarienses.



[1] Acadêmico graduando do Sétimo Semestre do Curso Pedagogia – Anos Iniciais do Ensino Fundamental: Crianças, Jovens e Adultos. Professor nomeado para as séries iniciais e convocado para as séries finais do Ensino Fundamental e Médio do Ensino Fundamental no Magistério Estadual do Rio Grande do Sul.
[2] Foto disponível no site http://www.caxias.rs.gov.br/meioambiente/educacao/paisagem.hpp4. Não aparece o nome do fotógrafo responsável pela foto.
[3] Docente do Instituto Estadual de Educação Irmão Getúlio e da Universidade de Caxias do Sul – UCS.
[4] Prado Júnior, Caio. Formação Social do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1999.
[5] Op. Cit.
[6] Op. Cit.
[7] BARBOSA, Fidélis Dalcin. Vacaria dos Pinhais. Editora da Universidade de Caxias do Sul: Caxias do Sul, 1978.
[8] Segundo a lenda, um senhor estava queimando campo para acabar com o mato e fazer uma roça. Certa parte do campo não queimou. Ele foi verificar o motivo, e acabou encontrando uma imagem de Nossa Senhora da Oliveira. Entregue a padres, estes tentaram levar a imagem para uma cidade vizinha, mas a santa desapareceu de suas bagagens, tornando a aparecer no local onde aparecera. Isso teria ocorrido três vezes. Na terceira vez, os padres se convenceram que a santa queria era ficar em Vacaria. Foi erguida, então, uma igrejinha para abriga-la. Hoje, além da magistral catedral de pedra moura, em estilo gótico, localizada na praça central da cidade, existe o Oratório de Nossa Senhora da Oliveira, no exato local onde a santa teria sido encontrada. A história da santinha realmente é um mistério, pois Vacaria pertencia à Espanha, e a Santa é uma santa portuguesa.
[9] Fotos disponíveis no endereço eletrônico http://www.rotacamposdecimadaserra.com.br/vacaria/. Não aparece o nome do fotógrafo responsável pela foto.
[10] RÜCKERT, Aldomar A. A trajetória da terra: ocupação e colonização do centro-norte do Rio Grande do Sul: 1827 – 1931. Passo Fundo: EDIUPF, 1997.
[11] HÖRMEYER, Joseph. O Rio Grande do Sul de 1850: descrição da Província do Rio Grande do Sul no Brasil meridional. – D.C. Luzzatto Ed.:EDUNI-SUL, 1986.
[12] SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul: 1820-1821. Editora Itatiaia: Belo Horizonte, 1974.
[13] SOLDATELLI, Dalva Holmer. Vacaria e os meios de transporte nas primeiras décadas do século. (in.) Raízes de Vacaria I – Porto Alegre: EST, 1996.
[14] Solto no campo, sendo que era preciso reuni-lo antes de formar a tropa.
[15] Serra da Rocinha. Caminho perigoso para o litoral. Meu finado avô conta que em determinados trechos da serra passavam apenas um animal por vez. se caísse uma rês ou mula penhasco abaixo, nada se aproveitava depois.
[16] Maneira como meu avô se referia a partes fundas do curso de um rio. Era um “poço” formando naturalmente  dentro do rio.
[17] Maneira como o rio “das Antas” é chamado pelos antigos moradores da região.

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